D. AFONSO HENRIQUES
Pai da pátria portuguesa: 1109 - 1185
Angela Dutra de Menezes
De História ela sabe, e muito. Mas a
irreverência tropical toma-lhe o braço e a Angela começa a espanejar a poeira
que deixámos acumular sobre os vultos primeiros de Portugal. Já sacudido, aí vem
o Fundador. Vamos lá aproveitar para meter conversa...
FCS
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QUANDO TUDO ACONTECEU... 1109: Provável ano de nascimento, em Coimbra, do infante Afonso Henriques, filho do conde Henrique de Borgonha e de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Castela e Leão. No mesmo ano morre Afonso VI. Início da disputa entre dona Urraca, a herdeira legítima, dona Teresa e vários outros pretendentes ao trono. A briga pelo poder dura anos. - 1122: Afonso Henriques antecipa em sete séculos um gesto de Napoleão Bonaparte. Ignorando o cardeal que presidia a cerimônia, arma-se cavaleiro na catedral de Zamora. - 1128: Afonso Henriques luta contra a mãe, dona Teresa, e seu aliado, o conde galego Fernão Peres de Trava. As tropas de Afonso Henriques e dona Teresa se enfrentam no campo de São Mamede, junto ao castelo de Guimarães. O exército galego é derrotado. Esta vitória leva dona Teresa a desistir da idéia de anexar a região portucalense ao reino da Galícia. - 1129: No dia 6 de abril, Afonso Henriques dita uma carta em que se proclama soberano das cidades portuguesas. - 1135: Afonso VII, filho de dona Urraca, é coroado “imperador de toda a Espanha” na catedral de Leão. Afonso Henriques se recusa a prestar vassalagem ao primo. - 1137: Paz de Tui. Após lutar com Afonso VII no Alto Minho, Afonso Henriques promete ao imperador “fidelidade, segurança e auxílio contra os inimigos”. - 1139: Batalha de Ourique. Afonso Henriques vence cinco reis mouros. - 1140: Afonso Henriques começa a usar o título de Rei. - 1143: Provável Tratado de Zamora no qual estabelece a paz com o primo Afonso VII. Primeiro passo para a independência portuguesa. Afonso Henriques escreve ao Papa Inocêncio II e se declara - e a todos os descendentes - “censual” da Igreja de Roma. A palavra “censual” significa que Afonso Henriques é obrigado a prestar obediência apenas ao Papa. Na região que governa, portanto, nenhum outro poder é maior que o dele. - 1147: Afonso Henriques expulsa os mouros de Lisboa e várias outras cidades portuguesas. - 1169: Afonso Henriques é feito prisioneiro pelo rei de Leão, Fernando II. - 1179: A Igreja Católica reconhece, formalmente, a realeza de Afonso Henriques. - 1180: Final dos conflitos com Fernando II, de Leão, pela posse de terras na região da fronteira e costa da Andaluzia. - 1185: Afonso Henriques morre na cidade em que nasceu. Sua herança, além de imensa fortuna, é o Condado Portucalense, primeiro território europeu que estabelece sua identidade nacional. |
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“... não quero mais saber do lirismo que não é
libertação.” |
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Ninguém merece mais este título que o infante Afonso Henriques,
filho de dona Teresa, bastarda do rei Afonso VI de Leão e Castela, e do
conde Henrique de Borgonha. Pouca gente sabe. Mas, graças à esperteza
política de Afonso Henriques, Portugal é a primeira nação européia a se
estabelecer como Estado independente. Antes do ano 1200, Portugal já é
Portugal. Com direito, inclusive, a língua própria: o
galaico-português. Gênio, estadista, raposa política, vitorioso, implacável,
espertíssimo: Afonso constrói uma história rocambolesca. Tudo que pode
manipular a seu favor, manipula sem escrúpulos. Inicia a trajetória de vitórias
fundando um reino. Para tanto, manda mamãe para o espaço sem sequer dizer
adeus. Naquele tempo, porém, ninguém cogita a possibilidade de Portugal
ser conseqüência de um Complexo de Édipo mal resolvido. Até porque, Freud
ainda não pensa em nascer. O avô de Afonso Henriques destaca-se como um dos homens mais
poderosos de sua época. Amigo
pessoal de Santo Hugo - que não sabe que será santo, mas já constrói a
Abadia de Cluny, o maior templo que a cristandade jamais erguera - , Afonso VI tira do bolso, ou dos
cofres públicos, grande parte dos recursos que financiam o sonho de Hugo.
Bem relacionado com os outros reis cristãos, influente, excelente jogo de
cintura, Afonso VI, entre uma e outra doação a Cluny, consegue casar sua
bastarda com um dos condes de Borgonha - família finíssima, não é assim,
toda hora, que um Borgonha se mistura à gente mal nascida. Mas Afonso VI embrulha a oferta para presente: Henrique leva Teresa
e, de quebra, o Condado Portucalense, terras a oeste de Castela que, há
tempos ensaia a gracinha de viver por conta própria. Afonso VI, sabendo das estrepolias
portucalenses, resolve matar dois coelhos com uma cajadada só. Em 1092,
reúne as duas unidades condais da região – ao norte e ao sul do rio Douro
– e determina que o novo e único condado pertencerá à Teresa – e ao marido
dela, claro. Urraca, a filha legítima, sentará no trono de Leão e Castela,
como ensinam as regras da moral e dos bons costumes. Mais do que bom e preocupado papai, Afonso VI tenta ampliar seu
poder e garantir domínio sobre maior extensão de terras. Tiro pela
culatra. Tão logo o rei de Leão e Castela mete o bedelho no Condado
Portucalense, a nobreza local inicia forte movimento separatista.
Coitado de Henrique de Borgonha, estrepa-se nesta história. Além
de gerar a genialidade de Afonso Henriques,
pouco lucra com o casamento. Fica zanzando em Portucale, tentando ajudar
ao filho. Mas o rebento é rebelde e dispensa-lhe os palpites. Dom
Henrique, francês chiquérrimo, se aborrece. Assusta-o a idéia de passar para a
posteridade qual simples reprodutor. Mas a culpa é do sogro. Afonso VI, ao
engendrar a novela, comete um de seus poucos erros políticos: não leva
em conta nem o bairrismo do Condado Portucalense, nem a possibilidade de
alguém armar uma falseta.
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“...um poder mais alto se
alevanta...” (Camões, Os Lusíadas) | |
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Afonso Henriques, ele mesmo, sagra-se
cavaleiro.
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Arma – quem é avô de estadista, deve tomar precauções. Afonso
Henriques tem 20 anos quando Afonso VI morre. Se famílias se estraçalham
pela baixela de prata da
vovó, imaginem quando o motivo é o poder de uma coroa. Desentendem-se
todos. Urraca discute com o Bispo de Compostela, atrita-se com rei de
Aragão, cospe desaforos para o conde da Galícia, faz e acontece. Acometida
de olho-grande, síndroma que costuma atacar herdeiros menos favorecidos,
Teresa desanda a arquitetar alianças desastrosas – quem sai aos seus, não
degenera. De repente, Teresa dá o passo fatal. Arquitetando anexar Portucale
à Galícia, alia-se aos
galegos, tradicionais rivais dos barões de Portucale.
É desconhecer o filho, menino que emite sinais de seu gênio – no
bom e no mau sentido - aos 13 anos. Nesta idade, na cerimônia em que o
sagram cavaleiro, na catedral de Zamora, Afonso Henriques manda às favas o
bispo e ele mesmo sagra-se. Recusa a mediação divina. Igualzinho Napoleão,
alguns séculos mais tarde – pena o infante não falar francês, língua dos
sofisticados, nenhum compêndio
de história esqueceria tal feito. Dizem, não há provas
documentais, que o avô fica orgulhosíssimo com a petulância do fedelho - é
pena que tanto talento evapore em Portugal, comenta Afonso VI. Fofoca,
naturalmente. Portugal e Espanha cultivam uma antipatia milenar, todo
mundo sabe e não perde ocasião de jogar lenha na fogueira. Enfim, com tal filho nas mãos, dona Teresa, além de se aliar aos
galegos, aparece com outro conde debaixo de braço, contando uma história
trôpega de “apoio político”. Arma-se o circo. Com 21 anos, Afonso
Henriques cerca Guimarães e declara uma briga de gafieira: quem está fora,
não entra; quem está dentro, não sai. Nem mamãe, suposta rainha do
condado. É bom que se diga: igual ao avô, o infante não dá ponto sem nó.
Fareja que, com poucas chances na linha sucessória de Leão e Castela,
precisa descobrir o próprio espaço.
Quer o poder, seu lugar é no condado materno.
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“Eu
tenho apenas duas mãos, (Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo) | |
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Contando assim, parece fácil. Não é, senão qualquer pessoa faria.
Afonso Henriques tem enorme sensibilidade. Age na hora certa, com as
pessoas certas, da maneira certa. Não falseia. Comporta-se como perfeito
animal político do início ao fim de sua história. Faz a História, coloca o
mundo nas mãos. Tolos são os que o cercam, incapazes de observar a
genialidade do príncipe enquanto ele arma o bote.
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“...Se governar fosse fácil, (Bertold Brecht, Dificuldade de governar) | |
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O infante custeia a construção da catedral de Braga.
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Pronto, o Condado Portucalense começa a escorregar para dentro de
seu bolso. Daí para frente, cabe a ele segurar a peteca e combater quem
lhe atrapalhar os sonhos. Combate e vence. Quando não vence pela força,
moedas de ouro resolvem a situação – ah, a corrupção, não é de hoje que
nos persegue. Os inimigos principais são os mouros, aboletados na maior parte do
território português. Mas o primo Afonso VII e Fernando II, ambos de
Castela, também levam umas cacetadas. Este último, prenderá Afonso
Henriques em Badajoz e se espantará com a riqueza do rei português. De
resgate, Afonso Henriques pagará quase duas toneladas e meia de ouro. Na
maior facilidade e sob os delirantes aplausos dos conterrâneos que não
queriam perdê-lo de jeito nenhum. Para alcançar tal prestígio, Afonso Henriques sua. Passa a vida
combatendo e costurando acordos políticos. O primeiro, com a Igreja
Católica, pedra angular do qualquer poder durante a baixa Idade Média.
Quem não recebe a benção episcopal que trate de procurar novo emprego.
Logo após a vitória de São Mamede, Afonso Henriques estabelece suas
relações com a Igreja: cede em tudo. Sabe onde pisa, os clérigos têm força
demais para serem contrariados. Em troca de apoio amplo, geral e irrestrito, o arcebispo de Braga
recebe a garantia de seus privilégios: direito de cunhar moedas e
autoridade absoluta sobre a cidade. Não satisfeito, o infante custeia a
construção da catedral de Braga, abarrota os piedosos cofres, reconhece a
autoridade divina sobre a sua e prestigia os eventos da fé. Espanto: os
arcebispos de Braga cumprem sua parte. Durante os quase 60 anos de
reinado, não abandonam Afonso Henriques. Uma relação perfeita, se
casamentos transcorressem assim, advogados de família morreriam de
fome. A raia miúda conventual colabora da melhor maneira possível. Em
textos da época, monges do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, não
economizam elogios a Afonso Henriques: “prudente, sábio, inteligente belo,
gigante, leão rugidor” – quase uma comissão de frente. Depois da batalha
de Ourique, então, os frades passam a delirar. Na opinião deles, Afonso
Henriques é o “eleito de Deus para provar a autonomia de Portugal e dos
portugueses”.
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“Chegado
tinha o prazo prometido, (Camões, Os Lusíadas, canto terceiro) | |
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Em 1135, sepultadas as controvérsias sobre a sucessão de Afonso VI,
o filho de dona Urraca sobe ao trono com o título de Afonso VII. A
cerimônia na catedral de Leão é apoteótica, o novo rei exibe luxo
excessivo. Da família, só Afonso Henriques não comparece. A intenção
parece clara: mostrar, de uma vez por todas, que o Condado Portucalense
não presta vassalagem ao soberano de Leão e Castela e que Afonso Henriques
considera-se tão rei quanto o primo recém-coroado. |
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“...Cinco
escudos azuis esclarecidos, (Camões, Os
lusíadas, canto terceiro) | |
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D. Afonso Henriques e a batalha de
Ourique.
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Tudo sobre Ourique são conjeturas. Mas a história é tão importante
que marca o imaginário português, permanece no brasão do país - cinco
escudos, cinco quinas, cada qual com cinco bolas representando os cinco
reis mouros degolados na batalha – e, finalmente, transforma Afonso
Henriques em rei de fato e de direito. Até hoje, historiadores portugueses
discutem o episódio. Alexandre Herculano encarrega-se de tornar a batalha ainda mais
célebre ao afirmar que “Ourique não passa de uma lenda”. Deus nos acuda,
Portugal vem abaixo. Acusam-no de herege – é bom lembrar que último herege
lusitano tinha ido parar na fogueira apenas um século antes, tempo
historicamente insignificante
- de anti-clerical, de ateu, de agnóstico, de... Bem, deixa para
lá. Se gritam algo pior, a memória não registra. Historiadores contemporâneos, entre eles José Hermano Saraiva,
tendem a colocar Ourique no devido lugar. De concreto, sabe-se que ocorre
uma batalha no dia 25 de julho de 1139, que o exército mouro é
numericamente superior e que a vitória cabe a Afonso Henriques.
Desconfia-se, também, que Afonso VII, naquela altura sitiando Aurélia,
cidade moura de enorme importância estratégica, ajuda a meter o primo na
enrascada. Ao receber a notícia que o infante pratica uma razzia – tipo de combate usado
pelos portugueses, que gostam de se infiltrar em território inimigo,
surpreendê-los, destruí-los e fugir correndo –, Afonso VII mexe seus
pauzinhos, desviando o exército islâmico que marchava em socorro à
Aurélia, para destruir o infante. Pode ser, a participação de Afonso VII
não passa de mais uma hipótese. Nem o local da batalha é preciso. A cidade de Ourique fica tão ao
sul de Lisboa, tão no interior dos territórios mouros, que parece
impossível o infante ter se arriscado tanto. No entanto, há registros de
outras razzias ousadas. Por outro lado, no
início da Idade Média, chamava-se de Ourique o Baixo-Alentejo. Lenda e
História não decifram estes mistérios. A versão popular da batalha de Ourique conta que Afonso Henriques
combate imenso exército islâmico, mata cinco reis mouros e coloca o resto
da multidão para correr. Tudo em um dia. Especial favor de Cristo Nosso
Senhor que, na véspera, aparece ao infante com quem conversa
amigavelmente. Apenas Afonso Henriques vê Cristo - que, aliás, surge
escoltado de anjos – e apenas Afonso Henriques ouve-o garantir a próxima e
espetacular vitória portuguesa. O moral da soldadesca alcança as nuvens quando eles sabem quem lhes
fizera uma visitinha. Além do mais, 25 de julho é dedicado a Santiago, o
mata-mouros, santo que jamais abandona cristãos em perigo. Especialista em
degolas, Santiago trabalha com eficiência invejável – aparentemente,
é o primeiro ser do planeta a
conhecer o lugar exato das carótidas, não perde uma. Hoje, parece,
aposentou-se. Como se vê, tudo colabora para o sucesso do infante.
Batalha vencida, povo em delírio, igreja desvanecida. O infante
passa a se assinar “rei dos portugueses”. Neste momento, define-se a identidade lusa. Afinal, Ourique
estabelece o importante diferencial: em que outro lugar o rei conversa, ao
vivo e em cores, com as hostes celestiais? Em 1143, quando o Cardeal Guido de Vico, emissário do papa, reúne o infante e Afonso VII em
Zamora, território de Leão, para tentar convencê-los que a animosidade
entre ambos favorece aos infiéis, Afonso Henriques joga outra cartada
genial. Alegando o milagre de Ourique, escreve a Inocêncio II, reclamando
para si e seus descendentes, o status de “censual”. Ou seja,
dependente apenas de Roma. Dentro de seu território manda ele e só ele –
estamos conversados. O Vaticano custa a responder. Na verdade, exatos 36 anos. E só
responde depois que Afonso Henriques acelera o processo com uma esmolinha
de mil moedas de ouro. Quando, em 1179, a Igreja de Roma, finalmente, reconhece a realeza de Afonso
Henriques, o reconhecimento já não tem importância. A independência se
consumara, Portugal afirmara sua soberania e o infante encerrava a vida
como rei de primeira grandeza.
Em Zamora, do encontro entre os primos e o cardeal, Afonso
Henriques colhe um lucro imediato. Afonso VII tira o cavalinho da chuva e
entende que o infante português jamais lhe prestará vassalagem. Por conta
própria, começa a tratá-lo de igual para igual.
Engana-se quem pensa que a vida de Afonso Henriques resume-se a
trançar fofocas políticas, fazendo e desfazendo aliados. O homem parece
uma fera. Combate ao lado dos soldados, comportando-se como igual, sem
frescuras de hierarquia. Sua tropa mais que o respeita: venera-o . Obedece
qualquer ordem.
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“...
sangue seco nas roupas, olhar duro, (Carlos Drummond de Andrade, Os assassinos) | |
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Com a desculpa de empurrar infiéis de volta aos locais de origem,
Afonso Henriques amplia o território português: Lisboa, Santarém, Almada,
Óbidos, Palmela, Sesimbra. Combate após combate, destruindo mouros como
quem destrói ratos, Afonso Henriques constrói seu reino. Na reconquista, a
política é de terra arrasada: matar quem se movia, queimar o resto. Quase
um milênio antes de os americanos levarem uma corrida dos subnutridos
guerrilheiros vietcongs, Afonso
Henriques adota táticas de guerrilha. Comandando um exército pequeno, ele
entende que sua vantagem mora no elemento surpresa. Os generais da época
pedem os sais com tamanha ousadia - como se, para morrer, fosse realmente
necessário seguir um figurino. Nosso rei apronta novidades. Quando prevê combates longos, contrata
mercenários. Geralmente cruzados, a caminho da Terra Santa, que aproveitam
a escala em Portugal para degolar
islâmicos e recolher o produto do saque – promessa do rei. O cerco de Lisboa, em 1147, segue
este modelito. Entre
portugueses e cruzados ávidos por lucro fácil, Afonso Henriques reúne
centenas de milhares de homens e cerca de 150 navios. A reconquista de Lisboa é um triste e belo episódio da História
portuguesa. Afonso Henriques
exagera na violência. Redime-se, mais tarde, com a Carta de segurança de 1170 que
proibirá cristãos e judeus de maltratar os mouros da região de Lisboa.
Definitivamente, El Rei aprecia
grandes e inesperados gestos. Sorrateiro, costuma agir por baixo dos panos, pré-estréia do jeito
luso-brasileiro de ser. O bandoleiro Geraldo Sem Pavor, que saracoteia
desenvolto em terras de Castela, provavelmente trabalha para Afonso
Henriques. Se o infante não pode invadir propriedade alheia, um preposto
oficioso pode. Não há como provar. Mas os cavaleiros de Geraldo Sem Pavor
pertencem ao Conselho de Coimbra, é difícil imaginar tais cidadãos
combatendo sem aprovação real. O infante que pretende ser rei, vira um mito. É impossível separar
verdade e lenda na biografia de Afonso Henriques. Ele antecede seu tempo,
revela-se um gênio de extraordinária visão política e indiscutível coragem
moral. Dele, restam poucos registros escritos pelos monges de Santa Cruz -
até porque, além dos monges, ninguém mais sabe escrever, nem Afonso
Henriques.
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“...Sapatos
bordados
a ouro, (Jorge Amado, Alegre
Menina) | |
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Os relatos da época – descontados os elogios de praxe - delineiam um perfil justo,
generoso e irreverente. Retratam o caráter corajoso, sujeito a crises de
cólera, capaz de atos de violência e de reconhecer seus erros. Elogiam a frugalidade à mesa e
ressaltam a tendência conquistadora. Não apenas de poder e terras. De
mulheres, também. Ou principalmente.
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“Que destino é o meu senão o de assistir o meu
destino...” (Vinicius de Moraes, A vida vivida) | |
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O testamento de Afonso Henriques, primeiro rei do primeiro país
europeu a adquirir consciência de nacionalidade, revela que, até na morte,
ele se comporta como estadista. Sua imensa fortuna, amealhada em mais de
meio século de guerras e saques, confunde-se com o próprio tesouro
português. O rei a destina ao fortalecimento da nação. Por ordem dele,
centenas de milhares de maravedis são entregues à defesa - El Rei pressente que os mouros
preparam um contra-ataque. Outra centena de milhares constróem hospitais e
sustentam ordens religiosas e militares. Os mais pobres recebem seu
quinhão. Erguem-se igrejas e catedrais. Conventos acolhem doações e
sustentam-se anos. Ao herdeiro, Sancho I, Afonso Henriques deixa a única recomendação
geopolítica: a construção de uma ponte entre o norte e o sul do país
para não se perder a
unificação que ele custara fazer e manter. Pena que não existam registros
se Sancho obedeceu, ou não, às ordens paternas. Afonso Henriques, o pai da pátria portuguesa, morre no dia 6 de
dezembro de 1185, em Coimbra,
mesma cidade onde nasceu. Seu corpo é enterrado no Mosteiro de Santa Cruz.
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