Ludwig Van Beethoven

Durante a Segunda Guerra Mundial, os países ocupados pela Alemanha eram proibídos de ouvir outras rádios que não as indicadas pelo III Reich. Todavia, muitas pessoas desafiavam a proibição para escutar a BBC de Londres, que durante a guerra usou como prefixo as notas iniciais da V Sinfonia de Beethoven, cujas notas - três curtas e uma longa - correspondem a letra "V" - vitória - em código morse. Nesta, como em outras ocasiões, a liberdade foi associada a Beethoven.

Ludwig Van Beethoven nasceu em 17 dezembro de 1770 na cidade de Bonn, na Alemanha, à beira do Reno. Seu pai, Johann Van Beethoven, era músico, trabalhando a serviço do príncipe local. De ascendência holandesa, o músico Johann, que já havia perdido vários filhos, só tinha uma ambição: que seu filho Ludwig fosse um novo Mozart.

Desde pequeno fez o filho estudar música, a ponto de fazê-lo negligenciar outros estudos, apenas para poder exibí-lo como um novo prodígio na Europa, tal como Mozart anos antes. Para tanto, deixou o ensino musical do filho confiado ao professor Christian Gottlob Neefe, organista da corte de Bonn. Extravagante, entregue ao álcool, o pai de Ludwig forçava-o a tocar nas horas mais estranhas, muitas vezes tirando o menino da cama de madrugada para exercitar-se ao piano.

A primeira ocupação oficial de Beethoven foi como assistente de Neefe, cumprindo as funções de organista e tocando na orquestra do príncipe eleitor Maximiliano Francisco. Aos 17 anos viajou para Viena, onde parece ter se encontrado com Mozart, embora não esteja provado que chegou a tomar aulas com ele. Embora pretendesse ficare em Viena, a morte de sua mãe o levou de volta a Bonn.

A família de Beethoven, nessa época, estava em franca decadência. Seu pai, vencido pelo alcoolismo, mantinha-se autoritário, irascível e violento. Os irmãos Karl e Johann, que ainda dariam muito trabalho à Beethoven, eram pequenos. Ludwig tomou a frente da situação, requerendo às autoridades metade do salário de seu pai, para poder sustentar os irmãos.

Nos anos seguintes Beethoven trabalhou na orquestra do príncipe, escrevendo obras encomendadas pela nobreza local e reforçando, desse modo, seus vínculos com a aristocracia. Entre seus amigos estava o conde de Wallenstein, que muito contribuiria para o sucesso de Beethoven.

Viena

A palavra do conde, por exemplo, teve influência na decisão de Beethoven, aos 21 anos, de partir para Viena para estudar com Haydn. Chegava, desta maneira, a sua segunda e definitiva cidade.Os estudos com Haydn duraram pouco tempo, e Beethoven estabeleceu-se na capital austríaca como concertista e compositor, ao mesmo tempo que prosseguia seus estudos musicais com outros professores.

Jovem, respeitado como um bom músico, tudo se encaminhava para que Beethoven se tornasse mais um dos inumeráveis compositores que viviam em Viena na mesma época. Todavia, algo se abatia sobre o jovem compositor: ele estava ficando surdo.

A partir daí surge o Beethoven quase mítico que conhecemos. O drama da surdez, que o músico procura esconder a princípio, ganha proporções assustadoras na vida do jovem quando descobre que seu mal é incurável. Pouco a pouco, afasta-se do convívio social, no auge de sua fama, passando a viver como compositor e professor. É dessa época o famoso Testamento de Heilligenstadt, no qual Beethoven afirma sua convicção na música como única redentora de todos os males. É o legado metafísico de um homem desencantado com o mundo, mas ao qual não pode subtrair-se pois tem consciência de suas tarefas. E, paradoxalmente, sua fama, já nesta época considerável, aumenta a cada obra sua que é publicada.

O vida particular, por outro lado, parece afastar-se cada vez mais da esperança de felicidade. Seus vários relacionamentos amorosos terminam de maneira mais ou menos dolorosa, deixando profundas marcas no espírito do compositor, que se ve envelhecer antes do tempo. Os nomes se sucedem, imortalizados nas obras que o mestre lhes dedicou: Julie Guiccardi, Therese e Josephine Von Brunswick, Bettina Brentano e muitas outras, cuja paixão do solitário músico inspirava mais compaixão que verdadeiramente amor. Há, neste particular, uma curiosidade: quem terá sido a "amada imortal" à quem Beethoven dedicou uma belíssima carta de amor que nunca foi entregue? Impossível saber.

Beethoven não se deixa abater. Decide "segurar o destino pelo focinho", segundo suas próprias palavras. Nasce o mito do herói que luta, com sua arte, através das dificuldades para satisfazer seu próprio ideal estético.

Artistas de todo o mundo vinham conhecê-lo, trazendo partituras para que ele desse um parecer. Rossini, Liszt e Schubert, entre outros,  foram recebidos com cordialidade e afabilidade pelo músico.

Ao mesmo tempo, suas composições, criadas sem a menor preocupação em respeitar as regras até então seguidas, são aclamadas. Beethoven inaugura a tradição do compositor livre, que escrevia música para si, sem estar vinculado a um príncipe ou nobre. Tudo, em Beethoven, traz a marca da liberdade; era solitário, não tinha vínculos e responsabilidades com ninguém senão consigo mesmo.

Tal situação somente se alterou com a morte de seu irmão Karl, que o havia nomeado tutor do sobrinho do mesmo nome. O processo que Ludwig disputou com a cunhada pela guarda do sobrinho foi o primeiro de uma série de desgostos que o acompanhariam pelo resto de sua vida, culminando com a tentativa de suicídio de seu sobrinho, anos depois.

A surdez de Beethoven piorava. Um de seus concertos em Viena, justamente na estréia de sua Quinta Sinfonia, foi um fiasco total. O músico, sem distinguir uma só nota, insistiu em reger a orquestra, que, desorientada, não conseguiu tocar bem a partitura.

No final, o triunfo

Em 1823, Beethoven colocou o ponto final em uma obre que lhe demandara mais trabalho, e que lhe era das mais caras: a Nona Sinfonia. Preocupado com a possível má recepção do público vienense, Beethoven pretendia estreá-la em Berlim. A notícia, sabe-se lá como, foi espalhada pela cidade. Imediatamente as cabeças pensantes de Viena endereçaram um pedido, quase uma súplica, para que ele estreasse sua obra lá.

Foi programado um concerto, no Kärtnetor-Theater, em 7 de maio de 1824. Além da IX Sinfonia, foram apresentados trechos da Missa Solene e outras obras. Beethoven foi dissuadido de aceitar a regência, mas teve direito a um lugar especial junto ao maestro.

Ainda no terceiro movimento da sinfonia irromperam palmas. Terminado o quarto movimento, o triunfo: a platéia vienense o aclamava. Entrementes, Beethoven não ouvia nada, observando calmamente a partitura da sinfonia. Foi preciso que um contralto, Caroline Unger, o tomasse pela manga e o mostrasse a o público delirante.

Depois desse triunfo, Beethoven ainda compôs suas obras mais complexas, os últimos quartetos de cordas, muito apreciados na virada do século. Sua saúde, porém, começava a sedeteriorar. Em 1827, no dia 26 de março, às 17h45, durante uma tempestade, Beethoven morreu, vitimado por cirrose crônica - herdada, talvez, do pai - brandindo a mão fechada contra o céu, num último gesto de rebeldia.

Obras

Sinfonias

É difícil recomendar obras de Beethoven; as mais famosas nem sempre são as melhores, mas podem servir como introdução a sua vasta obra. Excusamo-nos de recomendar as obras mais batidas, como a Pour Elise, op. 59 (usada como música de caminhão de gás...) e a Quinta Sinfonia, op.67. Todos os seres humanos já as ouviram pelo menos uma vez.

Uma boa introdução ao gênio beethoveniano são as sinfonias, que atingiram sua maturidade com ele. A Nona Sinfonia, op.125, pode ser uma experiência estética inesquecível, desde que sob uma boa batuta, como Karajan, Bernstein ou Walter. Essa famosa sinfonia inclui em seu movimento final a "Ode à Alegria", de Schiller, cantada por um coral a 4 vozes. É aprimeira vez que isso acontece na história da sinfonia, sendo posteriormente adotada por diversos compositores - e encontrando, na Oitava Sinfonia de Mahler seu máximo desenvolvimento.

A Sexta, op.68, chamada de Pastoral, ou a Terceira, a Heróica, op. 55, dedicada a Napoleão Bonaparte, e a Sétima, op.92 são obras igualmente boas, tornando-se inócua qualquer disputa sobre qual é a melhor. Enfim, a Primeira, op. 21, Segunda op. 36, Quarta, op. 60 e a Oitava op. 93, apesar de negligenciadas  nas salas de concerto e mesmo pelo público, não são, de maneira nenhuma, obras menores. A primeira, inclusive, traz uma série de inovações harmônicas que mostram como Beethoven soube se libertar das regras que regiam a composição musical.

Sonatas

Dentre as sonatas, outro gênero no qual Beethoven foi mestre, recomendamos as mais famosas: a Sonata Patética, op 13, a Sonata ao Luar - Quasi una fantasia, op. 27 e a Sonata Waldstein, op. 53, e a Sonata op.2 n 1, dedicada a Haydn. Sem dúvida, encontram-se excelentes trabalhos além destes; a gravação de Fritz Jankl é recomendada, embora outras excelentes estajam à disposição no mercado.

Concertos

O Concerto para Piano n5, op. 73 é justificadamente mais famoso concerto de Beethoven. O subtítulo habitual, porém apócrifo, é "Imperador", e todo um ímpeto de majestade percorre todo o concerto. Em segundo lugar, mas com a mesma qualidade, está o Concerto n 3, op. 37, mais grave no tom. Nas gravações, é difícil encontrar um excelente maestro regendo um excelente pianista.Por suas capacidades individuais excepcionais, as dificuldades de acertar são várias, o que não exclui essa hipótese.

Bibliografia

Além da biografia escrita por Emil Ludwig, temos como obra de referência a biografia da série "The New Grove", que traz uma quantidade considerável de dados. A biografia de Romain Rolland, editada de forma resumida no Brasil, é um bom começo. Quem gosta de biografias romanceadas, pode achar - mas apenas em sebos - uma edição do romance Jean-Christophe, também de Romain Rolland. O livro é um pouco comprido - 1226 páginas - mas vale a pena.

 

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