Cultura Moçambicana

                                          Povos de Moçambique                                                        

 

Tentaremos aqui dar-lhe a conhecer os povos de Moçambique, que são incluídos no grande grupo dos Bantu.

Os povos que habitam actualmente Moçambique são incluídos no grande grupo dos Bantu, que povoa quase toda a África a Sul do Sahara. Dentro deste grupo há muitas sub-divisões, ou etnias. Vejamos algumas noções elementares das principais etnias de Moçambique, divididas, segundo muitos autores, em mais de oitenta sub-grupos.

A Norte do Zambeze
A partir do Rovuma, e da costa para o interior, situam-se quatro etnias que ofereceram grande resistência à penetração colonial:

Os Suahilis 
ocupam, antes do mais, as feitorias costeiras entre Quionga e Quelimane, se bem que encontremos igualmente pequenas colónias muito mais a Sul. A sua importancia na história de Moçambique deve-se, antes de mais nada, à sua religião (Islamismo militante), às suas funções comerciais (no essencial o tráfico de escravos) e às suas alianças internacionais. Os Xeques Suahilis, navegantes e negreiros, têm em Moçambique um papel ambíguo - destruidores dos seus vizinhos africanos mas, igualmente, seus protectores perante a pressão portuguesa. Como sultões de Angoche, estiveram entre os mais determinados adversários da conquista.

Os Macuas-Lomués 
constituem a mais numerosa etnia de Moçambique (3.000.000 em 1970), mas também a menos conhecida, a mais dividida e, provavelmente, a mais dificil de avaliar no plano da resistência. Inumeros regulados, parcialmente Islamisados (principalmente os Macuas costeiros), deram simultaneamente aos Suahilis e aos Portugueses, escravos, mercenários e inimigos. Esses agricultores sem estados mostraram ser inimigos difíceis para os que queriam forçá-los. O termo “Macua” tinha frequentemente um certo significado de desprezo. Com efeito na linguagem corrente, M’ Makhuwa significa aquele que é selvagem, aquele que come ratos, aquele que anda nú. M’ Makhwa significa também aquele que vem do interior do país.

Os Macondes
No seu planalto a Sul do Rovuma, são a própria imagem da recusa da colonização. Esses guerreiros intransigentes (foi no seu território que a conquista terminou), numericamente reduzidos (175.000 em 1970) são, na realidade, agricultores alérgicos a toda e qualquer forma de autoridade e de influência estrangeira.

Os Ajauas 
(entre 100 a 200 mil em 1970), a Oeste do Lugenda, são principalmente agricultores e artífices que os lucros do tráfico de escravos transformaram num verdadeiro flagelo para os seus vizinhos de Oeste e do Sul. Estavam em contacto comercial com os Suahilis e adoptaram o Islão mais ou menos autêntico. Os regulados Ajauas viriam a ser dos mais hostis à influência da administração portuguesa e, depois, da Companhia do Niassa.

Estas quatro etnias do Norte têm poucas coisas em comum para além de terem oferecido a mais multiforme e mais longa resistência à colonização portuguesa em Moçambique.

Além destas quatro etnias, o Norte de Moçambique tem ainda: 
um ramo do grupo Marave, a leste do lago Niassa - os Nhanjas

alguns núcleos de Angonis, ou melhor, de Angunizados, sem real significado demográfico.

O Eixo Zambeziano

Se descermos até ao Eixo Zambeziano, entraremos num verdadeiro arco-íris étnico a cuja decomposição vamos proceder de modo sumário. 

Do mar para o interior, deparamos com aqueles que os etnógrafos, na falta de melhor, designam pelo nome genérico de Complexo Zambeziano ou, de maneira mais restritiva, de Povos do Baixo Zambeze (900.000 em 1970). Compreendem, sobre um fundo Marave, a Norte, e Chona, a Sul, numerosos e variados contributos (Macuas-Lomués, Suahilis, Portugueses, Indianos, etc.) e formam um conjunto mais ou menos mesclado. Encontramos aqui também os Sena e os Chuabo.

Além deste complexo, notamos, a Norte de Tete, os Maraves orientais (200.000 em 1970) e os Angonis (30.000 em 1970) na fronteira do Malawi.

A Sul do Zambeze

Os Chonas 


(765.000 em 1970) são os herdeiros de povos que edificaram reinos importantes, como o Estado dos Muenemutapa, e com os quais os Portugueses entraram em contacto muito cedo (século XVI). Esses agricultores sofreram muito, no início do século XIX, com as invasões dos Angonis. O Reino do Barué, reconstituído efémera e tardiamente, procurou catalizar toda a resistência a Sul do Zambeze, mas falhou. Os outros estados Chonas desempenharam, nos séculos XIX e XX, um papel pouco importante. Foram, durante mais de duas gerações, tributários de um estado secundário muito importante e interessante, nascido da expansão Angune: Gaza.

Os Angonis
Os verdadeiros Angonis são, em Gaza, em pequeno número, mas o seu poderio e os recursos humanos do seu estado (900.000 a 1.000.000) foram suficientes par manter a independência de facto até 1895. Gaza, estado multinacional (Chonas no Norte, Tsongas no Sul e Angunizados no Sul), seria o núcleo da resistência do Barué.

Os Tsongas 
(1.850.000) ocupam o Sul de Moçambique. São agricultores e pastores que sofreram de modo desigual a influência dos seus senhores ou vizinhos Angonis e dos Portugueses. Aqui, o factor determinante parece ter sido a atracção da África do Sul, para onde a emigração temporária em massa, há mais de um século, tivera consequências nas mentalidades, no nível de vida, na cultura, etc., mais intensas que em qualquer outro ponto de Moçambique. 

Os Chopes 
são hábeis agricultores que tiveram, já tarde, de sofrer as campanhas de exterminação dos Angonis e Angonizados de Gaza. A sua resistência aos Portugueses de Inhambane está, porém, bem atestada, mas foi anarquica. Mais tarde, forneceriam, nas mesmas condições que os Tsongas, o essencial dos trabalhadores migrantes para a África do Sul.

Os Bitongas
por vezes classificados entre os Chopes, nunca cessaram de estar sob a alçada dos Portugueses. Os Chopes e os Bitongas eram avaliados, conjuntamente, em 450.000 em 1970.
Este quadro esboçado em linhas gerais, revela pois, dez grupos etno-linguísticos distintos e mais um décimo-primeiro (o dos povos do Baixo Zambeze) que representa simplesmente, uma conveniência dos especialistas. 

Este quadro completa-se com a simples menção de uma décima segunda componente do povo Moçambicano: os Asiáticos, ou mais precisamente os Indianos. Alguns dos representantes e descendentes destes Indianos desempenharam um importante papel na história da comquista da Zambézia. Durante muito tempo, encontramo-los em todas as feitorias e também no mato, ao passo que o povoamento português era ainda essencialmente urbano (exceptuando os oficiais-administradores).

 

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