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Pessoa, Fernando António
Nogueira (1888-1935)
Escritor português, natural de
Lisboa. Devido ao casamento da mãe, em segundas
núpcias, com o cônsul português em Durban
(África do Sul), viveu nesse país entre 1895 e
1905, aí seguindo os estudos
secundários.
Frequentou ainda, durante um
ano, a escola comercial e a Universidade do
Cabo. De regresso a Lisboa, frequentou, também
por um período breve, o Curso Superior de
Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma
tipografia e editora, dedicou-se, a partir de
1908, a tempo parcial, à tradução de
correspondência estrangeira de várias casas
comerciais, dedicando o restante tempo à escrita
e ao estudo da filosofia (grega e alemã,
nomeadamente), das ciências humanas e políticas,
da teosofia e da moderna literatura, que assim
acrescentava à sua formação cultural
anglo-saxónica, determinante na sua
personalidade.
Levando uma vida
relativamente apagada, movimentando-se no
círculo restrito de amigos que frequentavam as
tertúlias intelectuais dos cafés da capital,
envolveu-se nas discussões literárias e até
políticas da época. Colaborou na revista A
Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos
sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um
sebastianismo animado pela crença no surgimento
de um grande poeta nacional. Data de 1913 a
publicação de «Pauis» (poema que tentou criar
uma corrente — o paulismo) e de 1914 o
aparecimento dos seus três principais
heterónimos, segundo indicação do próprio
Fernando Pessoa. Em 1915, com Mário de
Sá-Carneiro e Luís de Montalvor, lançou a
revista Orpheu, marco do modernismo
português. Publicou, ainda em vida,
Antinous (1918), 35 Sonnets
(1918), e três séries de English Poems
(1921). Em 1934, concorreu com Mensagem a
um prémio oficial, que conquistou na categoria B
devido à reduzida extensão do livro. Colaborou
ainda nas revistas Portugal Futurista
(1917), Contemporânea (1922-1926, de que
foi co-director), Athena (1924-1925,
igualmente co-director) e
Presença.
A sua obra, que
permaneceu maioritariamente inédita, foi
difundida e valorizada pelo grupo da
Presença; a partir de 1943, Luís de
Montalvor deu início à edição das obras
completas de Fernando Pessoa, abrangendo os
textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa
ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados
escritos seus sobre temas de doutrina e crítica
literárias, filosofia, política e páginas
íntimas. Do seu vasto espólio foram também
retirados o Livro do Desassossego por
Bernardo Soares e uma série de outros
textos.
A questão humana dos heterónimos,
tanto ou mais que a questão puramente literária,
tem atraído as atenções gerais: concebidos como
individualidades distintas da do autor, este
criou-lhes uma biografia e até um horóscopo
próprios. Encontram-se ligados a alguns dos
problemas centrais da sua obra: a unidade ou a
pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de
realidade e a estranheza da existência.
Traduzem, por assim dizer, a consciência da
fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de
Pessoa a um papel que não é maior que o de
qualquer dos seus heterónimos na existência
literária do poeta. Assim questiona Pessoa o
conceito metafísico de tradição romântica da
unidade do sujeito e da sinceridade da expressão
da sua emotividade através da linguagem.
Enveredando por vários fingimentos, que
aprofundam uma teia de polémicas entre si,
opondo-se e completando-se, os heterónimos são a
mentalização de certas emoções e perspectivas, a
sua representação irónica pela inteligência.
Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo
Reis e Álvaro de Campos.
Caeiro
(1885-1915) é o mestre dos outros, e do próprio
Pessoa ortónimo. Sem profissão e pouco
instruído, vivendo numa quinta ribatejana,
apresenta uma visão instintiva e ingénua da
natureza, procurando viver a exterioridade das
sensações e recusando a metafísica, que reduz os
seres ao vazio dos conceitos.
Ricardo
Reis, nascido em 1887, de educação latina e
estudioso do helenismo (sendo Horácio o seu
modelo literário), é médico, não exercendo, no
entanto, a profissão. De convicções monárquicas,
emigrou para o Brasil após a implantação da
república. Pagão intelectual, lúcido e
consciente, reflecte uma moral epicurista, misto
de altivez resignada e gozo dos prazeres que o
não comprometam na sua liberdade interior, e que
é a resposta possível do homem à dureza ou ao
desprezo dos deuses, à efemeridade da
vida.
Álvaro de Campos, nascido em 1890,
engenheiro mecânico e naval formado na Escócia,
homem viajado, vive em Lisboa sem exercer a sua
profissão. Dedica-se à literatura, intervindo em
polémicas literárias e políticas. É da sua
autoria o «Ultimatum», publicado no Portugal
Futurista — manifesto contra os literatos
instalados da época; travou com Pessoa ortónimo
uma polémica aberta. Protótipo do vanguardismo
modernista, é o cantor da energia bruta e da
velocidade, da vertigem agressiva do progresso,
evoluindo depois no sentido de um tédio, de um
desencanto e de um cansaço da vida, progressivos
e auto-irónicos.
De entre outros de menor
expressão, destaca-se ainda o semi-heterónimo
Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que
sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu
Livro do Desassossego, uma lucidez
extrema na análise e na capacidade de exploração
da alma humana.
Quanto a Fernando Pessoa
ortónimo, segue, formalmente, os modelos da
poesia tradicional portuguesa, em textos de
grande suavidade rítmica e musical. Poeta
introvertido e meditativo, anti-sentimental,
reflecte inquietações e estranhezas que
questionam os limites da realidade da sua
existência e do mundo. O poema Mensagem,
exaltação sebastiânica com que se cruza um certo
desalento, numa expectativa ansiosa de
ressurgimento nacional, revela uma faceta
esotérica e mística do poeta, manifesta também
nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo
rosa-crucianismo.
Figura cimeira da
literatura portuguesa e da poesia europeia do
século XX, se o seu virtuosismo é, sobretudo
inicialmente, também uma forma de abalar a
sociedade e a literatura burguesas decrépitas
(nomeadamente através dos seus «-ismos»:
interseccionismo, sensacionismo), ele fundamenta
a resposta revolucionária à concepção romântica,
sentimentalmente metafísica, da literatura. O
apagamento da sua vida pessoal não obviou ao
exercício activo da crítica e da polémica em
vida, e sobretudo a uma grande influência na
literatura portuguesa do século
XX.
Existe presentemente, em Lisboa, uma
Casa Fernando Pessoa, instalada na última morada
do autor.
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